Nas profundezas da metrópole
O mergulhador que já resgatou até dólares no Tietê e outras histórias de quem ganha a vida nos subterrâneos de São Paulo
A São Paulo que se movimenta no subsolo, em profundidades que chegam a 40 metros
fé, suor e coragem

por Fernando Masini
O subsolo de São Paulo abriga uma parafernália vital. É onde circula o emaranhado de redes que torna possível a vida numa grande metrópole. Está tudo enterrado ali: o gás que consumimos para cozinhar, parte do sistema elétrico que ilumina as ruas e as redes de fibra ótica e de saneamento. São as "veias" de um "organismo" chamado cidade.
Em busca de um retrato menos técnico do subsolo paulistano, a Revista desceu a lugares invisíveis, onde milhares de pessoas trabalham sem ver a luz do sol. Eles escavam túneis, pilotam trens do metrô, fazem manutenção ou instalação das redes ou ainda ganham a vida em passagens subterrâneas.
Das pessoas que se metem nas profundezas de São Paulo, o operário de obras do metrô é um dos que atingem a camada mais profunda: trabalha a 40 metros abaixo do solo, em turnos de oito horas nas frentes de escavação. Há 37 delas espalhadas pela cidade no momento, distribuídas entre a linha verde, no processo de expansão até a Vila Prudente, e a linha amarela, que chega à Vila Sônia. São cerca de 1.300 operários trabalhando 24 horas por dia.
Faz parte dessa turma a engenheira Roberta Martineli, 29. A figura feminina de 1,60 m caminha de botas de borracha em direção a uma das frentes de escavação. O diâmetro do túnel, que futuramente ligará a estação Alto do Ipiranga à Sacomã, impressiona. São 8 m de altura por 12 m de largura.
Apesar do imenso tubo de ventilação no alto, o clima é abafado e tem gosto de poeira. Roberta conversa ao pé do ouvido com os operários devido ao barulho das britadeiras e dos caminhões que passeiam carregando terra de um lado ao outro. São 30 viagens por dia para retirar o entulho.
Para descer até lá, é preciso pegar um elevador que parece uma gaiola com grades de ferro. Ao saltar no "térreo", chama a atenção o altar improvisado pelos operários com a imagem de santa Bárbara. No início da obra, uma missa foi rezada para que o lugar ficasse protegido de eventuais acidentes. No começo de 2007, um acidente no canteiro de obras da futura estação Pinheiros, a 13,5 km dali, causou a morte de sete pessoas.
Antônio Carlos de Souza Cruz, 38, é um dos que sempre passam perto da santa após cumprir o turno sem contratempos. "Eu agradeço o dia de trabalho sem acidentes", diz o piauiense de Piripiri. Antes de descer, todos rezam um pai-nosso. Há mais de 15 anos construindo túneis, ele afirma que o único incidente que viu foi o desabamento dos arcos de sustentação nas obras da estação Vila Madalena. Por sorte, não havia ninguém no local.
O trabalho de Antônio Carlos é esguichar concreto nas paredes de barro. O serviço fica mais leve quando usa uma ferramenta automática. Aí o piauiense vira "operador de robô". "A gente só fica controlando a máquina com os botões, parece videogame." O que mais o incomoda é o calor.
O supervisor da obra, Guilhermino Carvalho, há 30 anos no ramo, brinca que "abrir túneis é uma caixinha de surpresa". Encontraram uma rocha no Sacomã. "Estamos gastando quase o dobro do tempo para escavar." A obra avança três metros por dia em cada frente. O trecho de 1 km está previsto para ser entregue no final de 2009.
Sol no intervalo
Assim que a estação Sacomã for inaugurada, a operadora de trem Débora Gomes terá seu percurso ampliado. Ela trabalha no metrô há quase duas décadas ajudando a conduzir os 225 mil passageiros que circulam por dia na linha verde. Integra a equipe de 800 operadores de trem que pilotam nas entranhas da cidade a velocidades de até 85 km/h.
Débora entra no serviço às 5h30. Diante da infinidade de botões no painel da cabine, ela ajeita a poltrona até se sentir confortável. Estica o braço para acender a luz interna. Em seguida, "pede comando", informando à central que entrou no trem. Dá uma olhada no papel de avisos que terá de anunciar nas viagens. Por fim, aciona a alavanca do piloto automático. Há dez anos ela cumpre essa rotina.
"Nossa função é maçante e repetitiva, é muita tensão e responsabilidade nas costas. Temos de estar preparados", diz. Débora aproveita os trechos das estações Imigrantes e Sumaré, em que o trem sai do túnel, para encontrar o céu. "São os únicos pedacinhos em que dá para saber se faz sol."
Ao todo, completa sete voltas partindo da estação Ana Rosa. Cada volta demora 50 minutos. Quando o relógio aponta 14h, Débora termina o expediente e sai rápido para ver a luz do dia. Assim como ela, outros 2 milhões de paulistanos, que utilizam diariamente o metrô, transitam entre a superfície e o subsolo, ao longo dos 60 km de linhas construídas.
A estrutura debaixo da metrópole é imensa e intrincada. Muitas vias se entrelaçam num engarrafamento subterrâneo. Apesar de haver, na teoria, a separação por camadas de acordo com a altura de cada serviço prestado, não é raro as conexões se esbarrarem no subterrâneo.
O espaço está abarrotado e muitas vezes é ocupado por carcaças inoperantes. O próprio encarregado por monitorar o subsolo da cidade reconhece. "Quando fizeram uma perfuração na Brigadeiro Luís Antônio, encontraram paralelepípedos, antigos trilhos de trem, dormentes e várias redes inativas", relata Ruy Villani, diretor do Convias, órgão municipal que cuida da infra-estrutura da cidade.
Mergulho de risco
O mergulhador José Leonídio Santos, 42, achou coisas curiosas na São Paulo submersa. Ao longo de 20 anos como mergulhador de risco, ele e sua equipe -que fazem uma média de três mergulhos semanais nas águas do Tietê e do Pinheiros para manutenção de redes e outros serviços- já esbarraram em cadáveres e dólares. "O Tietê é sempre uma surpresa", diz o mergulhador Pedro Ascobar, 27.
A equipe resgatou animais mortos, como uma sucuri de 5 m, além de corpos. "Estava tateando o fundo e senti um pé", lembra Leonídio. Eram os restos de uma jovem esquartejada em 1990. Bem mais agradável foi encontrar uma bolsa de dólares, em 1988. "Havia US$ 2.000", conta Leonídio. O dono do dinheiro nunca foi encontrado. O montante ficou com a empresa que contratou o serviço.
Mergulhar nas marginais é um acontecimento. Motoristas buzinam e parecem não acreditar que alguém se prepara para afundar no Tietê. A roupa de PVC e o capacete, que lembram um astronauta, servem também para afastar o cheiro do esgoto.
É assim que os profissionais encaram o mergulho cego que chega a 8 m de profundidade no Tietê. Eles usam o tato, já que é impossível enxergar nas águas turvas. Os mergulhos mais profundos, no entanto, acontecem em ambientes ainda mais inóspitos.
O "recorde" da equipe na cidade foi em um tanque de 30 m cheio de lama bentonítica, uma mistura de água e rocha vulcânica, usada em fundações de grandes obras. Eles, que não colocam o pé na água por menos de R$ 3.000, foram contratados para retirar uma peça de ferro que se soltou do braço de um trator numa obra de um hotel no centro.
No mergulho de risco, tecnologia é fundamental. Tudo é acompanhado por um monitor, de onde se vê a localização do mergulhador. Erros são fatais, e o medo, uma constante. "Se pensar, não mergulha", diz Leonídio, que não vê peixes coloridos, mas adora o que faz. "Não é todo dia que, no coração de São Paulo, o silêncio impera, e só se ouve as batidas do próprio coração ao se flutuar debaixo d'água."
Passagem subterrânea
Há vida e boas histórias também nas passagens subterrâneas da cidade. No cruzamento da Paulista com a Consolação, resiste aterrado um espaço de cultura. É a passagem que dá acesso à parada de ônibus e serve como travessia alternativa à faixa de pedestre. O local foi recuperado por uma associação que conta com o apoio da prefeitura. Hoje, abriga exposição de jovens artistas e funciona como uma pequena livraria de obras usadas.
Silas Rocha, 61, Odete Machado, 38, e outros amigos tocam o negócio a duras penas. Arcam com limpeza e manutenção. "A receita é só com a venda dos livros, mas dá para se manter na pobreza", brinca Silas. Nas escadas, ele passeia pela montagem com fotos de estrelas de cinema: Rock Hudson, Ingrid Bergman, Elizabeth Taylor, entre outros.
Num dia de bom movimento, são vendidos em média cinco livros, o que preocupa a turma. "Além de nosso ganha pão, é legal porque morador de rua compra livro aqui a R$ 1", diz Odete, a presidente da associação. "É um espaço democrático." Neste mês aconteceu ali um pocket show do compositor Heitor Branquinho.
Um contraste e tanto com a galeria sob o viaduto do Chá, espaço que foi aproveitado para uma apresentação do Teatro da Vertigem na Virada Cultural, e, hoje, abandonado, serve de "banheiro" para os moradores de rua. A passagem é colada ao Museu do Teatro Municipal. "A gente tem que acender incenso por causa do cheiro de urina o tempo todo", reclama Márcio Sgreccia, diretor do museu, que cobra uma maior atenção ao local. "É um descaso com a cidade e falta de interesse político."
A galeria fica trancada o dia todo e recebe apenas a visita de funcionários da prefeitura que fazem a limpeza. Mesmo assim, o cheiro forte exala pelos cantos. Na Virada Cultural, o vigia Thiago Zacchi, 23, conta que pegou gente fazendo sexo nas escadarias. Teve de bater boca com moradores de rua que desciam para fazer suas necessidades e enxotou garotos que usavam as imediações para cheirar cola. "Chegaram até a arrombar a grade para dormir aqui", conta Thiago. "Parece a cidade dos mortos-vivos de madrugada: assalto, gente usando droga." Um retrato sombrio bem próximo à superfície.
Fonte: UOL
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