Home Sugestões Staff Links Quem somos Contato

Peixes-bois marinhos são vistos
na Amazônia Atlântica


Fonte: Agência Amazônia de Notícias

Pesquisadores confirmam presença do Trichechus manatus na costa de Ilha de Marajó. Trabalho é destaque internacional.

LÁZARO MAGALHÃES (*)

BELÉM, PA — Caçados impiedosamente ao longo de décadas no norte do Brasil, os peixes-bois marinho (Trichechus manatus) e amazônico (Trichechus inunguis) foram quase levados à extinção ao longo da Costa Amazônica. Particularmente no caso do primeiro, o manatus, que ainda pode ser visto em alguns trechos do litoral brasileiro, acreditava-se que os anos de matança sem intervenção haviam resultado na sua completa dizimação ao longo da zona costeira paraense. Há décadas não se registrava oficialmente um avistamento qualquer do mamífero aquático na região.

Um artigo brasileiro recentemente publicado na Inglaterra, porém, acaba de confirmar o reaparecimento do peixe-boi marinho na Amazônia Atlântica. Além de relatar o recente achado de um crânio de peixe-boi marinho numa das praias da costa leste da Ilha de Marajó, o estudo também lança um outro foco de luz sobre a questão: se mais pesquisadores estivessem em campo atrás desses mamíferos, seguramente mais avistamentos de peixes-bois marinhos seriam registrados, confirmando de forma mais exata não apenas novamente a presença da espécie na região, mas também voltando a colocar em pauta uma discutida possibilidade de simpatria — coexistência de duas espécies variantes de um mesmo gênero em uma mesma área — do peixe-boi marinho e do peixe-boi amazônico na Costa Norte.

Novos dados

O artigo que trata da novidade, ‘Going back to my roots’, foi publicado no início de 2008 por pesquisadores do Grupo de Estudos de Mamíferos Aquáticos da Amazônia (Gemam). Esse grupo é ligado ao Museu Paraense Emílio Goeldi e ao projeto Piatam Oceano. O trabalho foi incluído no Jornal da Associação de Biologia Marinha do Reino Unido (JMBA). A publicação é apoiada pela Universidade de Cambridge.

Sua importância está justamente em relatar o primeiro registro confirmado de um peixe-boi marinho na costa do Pará em décadas: o crânio de um exemplar da espécie foi encontrado em uma das praias de Soure, no Marajó, ainda em 2005, durante atividades de monitoramento do grupo de pesquisa.

“Os dados atuais sobre a ocorrência do peixe-boi na costa oriental da Ilha de Marajó fornecem uma esperança nova para o futuro da espécie. Mostra provavelmente a habilidade desse mamífero marinho em se recuperar, apesar de um passado de dificuldades”, afirmam os pesquisadores brasileiros no artigo. Assinam o trabalho Salvatore Siciliano, membro do Grupo de Estudos de Mamíferos Marinhos da Região dos Lagos (GEMM-Lagos), Renata Emin (ENSP/Fiocruz), Alexandra Costa (Museu Paraense Emílio Goeldi, MPEG), Angélica Rodrigues (UFPA), Maura Sousa (Universidade Federal do Pará, UFPA), Cláudia Silva (do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá, IEPA), Shirley Pacheco (Unicamp, Instituto Terra & Mar) e José de Sousa e Silva Júnior (chefe do Setor de Mastozoologia do Museu Goeldi).

O peixe-boi marinho (Trichechus manatus) e peixe-boi amazônico (Trichechus inunguis) eram abundantes no norte do Brasil. Alguns relatos revelam uma época em que podiam ser capturados às dúzias em uma única ocasião. Porém, com o avanço indiscriminado das capturas comerciais, presumiu-se que ambos ficaram bem próximos da extinção ao longo da costa norte ainda nos anos 80. Desde os anos 90, porém, pesquisas feitas através de entrevistas com pescadores já levantavam evidências de que os números de peixes-bois marinhos apenas haviam encolhido sua presença ao longo da costa norte brasileira. “De algum modo, havia algumas poucas localidades onde essa presença ainda estava positivamente relatada”, afirma o artigo.

Após o achado do crânio de peixe-boi marinho em Soure, em 2005, uma série de visitas de campo para monitoramento de praias vem sendo conduzida desde 2006, com idas à costa marajoara a cada dois meses. Com apoio dos projetos Piatam Mar e Piatam Oceano, elas já permitiram duas observações de peixes-bois marinhos: grupos dos mamíferos foram avistados na praia do Garrote, em fevereiro e também em maio de 2007. Além disso, os pesquisadores do Gemam também vêm colhendo relatos de avistamentos feitos por pescadores e moradores locais, confirmando a ocorrência na área. “É notável como os pescadores estavam cientes de ocorrências de peixes-bois na costa leste da Ilha de Marajó”, ressalta o Gemam.

Ausência de pesquisas

Estudos como os que vêm sendo conduzidos pelo Grupo de Estudos de Mamíferos Aquáticos da Amazônia demonstram uma situação clássica para a região quando o desafio é aferir as verdadeiras dimensões da sua biodiversidade. As aparentes lacunas de espécies registradas — ou mesmo de novas descobertas — podem estar também relacionadas diretamente com a falta de pesquisadores aptos a fazer esses levantamentos nos mais diversos rincões do norte brasileiro.

Dimensionar a presença dos peixes-bois marinhos na costa paraense é justamente o objetivo do trabalho de conclusão de curso da graduanda em Oceanografia Maura Sousa, da UFPA. Integrante do Gemam, Maura atualmente faz um levantamento de áreas de ocorrência das espécies de peixes-boi na costa marajoara. O trabalho deve se prolongar até julho de 2008.

“Agora queremos levantar mais dados. Isso [ o indício da presença de peixe-boi marinho revelado pelo Geman ] mostra que só faltavam pessoas e esforços de monitoramento”, avalia outra integrante do grupo, a bióloga Alexandra Costa. Aliado ao seu esforço científico, atualmente o Gemam aplica questionários para reunir informações junto a comunidades costeiras, além das expedições bimestrais à região. Outros avistamentos de peixes-bois já foram feitos, mas a dificuldade desses encontros com os animais vivos é justamente a identificação precisa das espécies, já que apenas pequenas porções do seu corpo ficam à mostra, emersas.

Atualmente o Gemam cobre cerca de 60 quilômetros de praias da costa atlântica da Ilha de Marajó, do Rio Camará, ao Sul, ao Igarapé do Turé, ao Norte. O trecho de monitoramento é considerado ainda pequeno frente à dimensão da área costeira da ilha, que ainda conta com várias extensões desertas. Em 2008, quando chegar o período de estiagem de chuvas, o grupo quer realizar pelo menos uma expedição ao extremo norte do Marajó, no Cabo do Maguari, localidade de Pacoval.

“As possibilidades de ocorrências de peixes-bois abrangem uma região muito grande da Ilha de Marajó. Além de esforços de monitoramento em pontos fixos, precisamos de tempo para acompanhar mudanças sazonais, como períodos secos e chuvosos, marés cheias e vazantes”, esclarece Alexandra Costa. Para o Gemam, um bom reforço ao trabalho poderia ser a formação de monitores treinados nas próprias comunidades espalhadas pelos municípios de Soure e Salvaterra, em localidades como Caju-una.

Só em 2007, mais de 40 pescadores experientes foram entrevistados em Soure para uma avaliação sobre seus conhecimentos sobre mamíferos aquáticos. Ao todo, 95% deles relataram ocorrências de peixes-bois na área, embora não pudessem afirmar com precisão de que espécies estavam falando.

Entendendo a evolução

Além de boa notícia em tempos de medidas mais enérgicas para a preservação da biodiversidade, os indícios da presença de peixes-bois marinhos na costa leste do Marajó podem ajudar a ciência a entender melhor a evolução dos mamíferos aquáticos. A possibilidade de ocorrências simpátricas [duas espécies convivendo numa mesma área geográfica] do peixe-boi marinho e peixe-boi amazônico em uma larga faixa da costa brasileira intriga cientistas há anos. Um dos que mais se interessaram por essa distribuição dos mamíferos aquáticos na Foz do Amazonas foi o norte-americano Daryl Domning.

Renomado estudioso dos mamíferos marinhos herbívoros da Universidade de Howard, Domning esteve em Manaus nos anos 70 e acabou motivando-se a examinar ele próprio a distribuição dos peixes-bois na boca do Amazonas. Acabou realizando uma expedição em 1978. Após entrevistar pescadores e reunir uma coleção de crânios e esqueletos incompletos, Domning indicou a ocorrência do peixe-boi amazônico ao longo de toda a região do estuário do Amazonas, do Amapá à costa do Pará, incluindo a costa atlântica do norte da Ilha de Marajó. Porém, não avistou ou encontrou indícios da presença do peixe-boi marinho no Pará, apesar da espécie estar presente na costa do Amapá, no Cabo Norte, e no Rio Mearim, Maranhão, assim como mais ao sudeste.

Para Domning, as observações de espécies simpátricas ou com áreas de ocorrência contíguas seriam de grande valor aos estudos da biologia evolucionária dos mamíferos aquáticos. Em todo o mundo, apenas a costa norte brasileira forneceria hoje esperança de se encontrar duas espécies de sirênios vivendo em simpatria. O objetivo principal da expedição de Domning era justamente determinar distribuições das duas espécies de peixes-bois na região e identificar áreas onde o fenômeno pudesse ocorrer.

“Por isso a ampliação do monitoramento é tão importante. Precisamos monitorar encalhes de animais vivos e obter amostras para análises genéticas. Desta forma poderemos fazer estudos para o entendimento da diversidade genética e a estrutura das populações", reforça a pesquisadora do Gemam, Alexandra Costa. O grupo fez viagens a campo em fevereiro deste ano. A próxima viagem ao Marajó será em maio.

A simpatria é um dos modelos teóricos para o fenômeno de especiação. A especiação simpátrica seria a possibilidade de divergência genética de populações originárias de uma mesma espécie parental. O inusitado é que, nesses casos, essas populações se tornariam espécies diferentes mesmo apesar de estarem habitando uma mesma região geográfica. É o contrário da alopatria, quando populações que sofrem especiação estão geograficamente isoladas por peculiares barreiras geográficas, como uma montanha ou um rio.

Até 1980, a teoria de especiação simpátrica vinha perdendo força devido à ausência de maiores evidências. Ernst Mayr, um dos mais respeitados biólogos evolutivos, chegou a rejeitar a teoria. No entanto, o aparecimento de novas evidências e dados nas últimas décadas tem levantado novamente debates sobre as possibilidades de ocorrências. Ao que parece, a costa leste da Ilha de Marajó terá em breve um papel decisivo para a definição desses estudos.

(*) É repórter do Piatam Oceano

Cursos de Mergulho - Amigos do Joe - Todos os Diretos Reservados