Recife de Kingman
O raro e intocado recife Kingman é na verdade um cenário brutal, onde muitos peixes predatórios competem por presas raras e fugazes
As folhas de palmeira farfalhando na brisa tropical, praias de areia branca diante do mar azul-turquesa e, sob a superfície da água, um recife de coral repleto de peixes fotogênicos. O que poderia haver de errado nesse cenário de cartão-postal? De acordo com o ecologista marinho Enric Sala, esse recife de aparência próspera pode ser um ecossistema em apuros.
Essa opinião radical está baseada naquilo que Sala, da National Geographic Society, pôde observar em duas recentes expedições a Kingman, um recife coralino incluído em um conjunto de atóis e ilhas no Pacífico conhecido como ilhas da Linha (pois está situado sobre a linha do equador), 1,5 mil quilômetros ao sul do Havaí. Locais como o recife Kingman, remotos e quase intactos, preservam o registro de uma época na qual ainda era pequeno o impacto ambiental dos seres humanos. Mas são um recurso bastante escasso. "Em todo o planeta resta apenas meia centena de recifes nesse estado", diz Sala. Ele escolheu as ilhas da Linha porque o arquipélago apresenta todos os graus de interferência humana desde o desabitado e inalterado recife Kingman até a ecologicamente degradada Kiritimati (ilha Christmas), onde vivem mais de 5 mil pessoas.
O recife Kingman é um triângulo de coral com 46 quilômetros de extensão, que delimita uma laguna com 60 quilômetros quadrados, ou seja, uma área quase equivalente à de dois arquipélagos de Fernando de Noronha. Acima do nível do mar, não há nenhuma vegetação. O único terreno seco está restrito a faixas de entulho de coral alvejado pelo Sol e de conchas do molusco gigante Tridacna maxima. Sob a superfície, contudo, descortina-se um mundo de singular exuberância. O recife é uma refulgente cidade de corais Acropora, Fungia, Porites e Montipora, tão concentrados que mal se vê algum trecho de areia. Pelos interstícios disparam peixes das mais variadas espécies: fuzileiro, donzela, borboleta, bodião, assim como outros mordiscadores de plâncton, corais e algas que constituem a comunidade ictiológica de um recife. Acima do horizonte coralino circulam atentos os senhores do recife: o tubarão-cinzento e o de-ponta-branca, e o agressivo pargo-de-manchas. Na verdade, nada menos que 85% da biomassa de peixes em Kingman concentra-se nesses grandes predadores o oposto da imagem convencional de um recife, com multidões coloridas de peixes pequenos divertindo-se em um jardim de coral e quase nenhum predador visível. A proporção dos chamados apicais, que formam o segmento superior da tradicional pirâmide de biomassa, é maior que o de qualquer outro ecossistema de recifes coralinos. É como se ali a pirâmide de biomassa estivesse de cabeça para baixo.
Em terra, estamos acostumados com a noção de que um predador apical o leão, por exemplo precisa comer muitos gnus para sobreviver. Mas como imaginar um mundo com 1 quilo de gnu para cada 5 quilos de leão? Uma pirâmide inversa só pode funcionar se ocorrer rápida renovação da biomassa nos níveis inferiores. É preciso que as presas se reproduzam rápido; ao contrário dos predadores, que devem crescer devagar e viver muito. E é isso o que parece estar ocorrendo no recife Kingman. Muitas espécies de presa desovam várias vezes por ano, reconstituindo sua população no mesmo ritmo em que é consumida pelos predadores. Mesmo assim, eles mal conseguem assegurar a própria sobrevivência: no vizinho atol de Palmyra, os pesquisadores notaram que o estômago de pargos-de-manchas estava quase vazio. Portanto, este é o quadro que emerge da vida em um recife sadio: predadores esfomeados e presas escassas vivendo em terror.
Se o recife Kingman, com seu predomínio de predadores, representa o melhor estado possível a um recife de coral, de que maneira a remoção dos grandes carnívoros por meio da pesca afeta as comunidades coralinas em outros locais Kiritimati, por exemplo? Como indicam as observações nas ilhas da Linha, a pesca excessiva pode desencadear um surto de crescimento demográfico entre os peixes menores. Por algum tempo, o recife tem uma aparência de grande exuberância; em questão de décadas, porém, o ecossistema pode se deteriorar, deixando de ser um exemplo de biodiversidade marinha para se tornar um deserto ecológico repleto de sedimentos.
"A eliminação dos principais predadores acelera a taxa de renovação de toda a comunidade do recife", diz Sala. Essa aceleração acaba por desencadear uma proliferação de micróbios, alguns dos quais são capazes de provocar a morte dos corais. A pesca excessiva dos grandes herbívoros ajuda na devastação dos recifes. Sem eles, prosperam as extensas algas e sua atividade fotossintética eleva o teor de carbono orgânico dissolvido no sistema, estimulando o crescimento de bactérias.
A pesquisa está sendo feita em um momento crítico para os recifes de coral, ameaçados em todo o mundo na medida em que o aumento dos níveis dos gases associados ao efeito estufa eleva a temperatura dos oceanos e acentua a acidez das águas. O aumento das temperaturas desencadeou episódios de branqueamento de corais. E a elevação da acidez, resultante de maior absorção pelos oceanos do dióxido de carbono, põe em risco a viabilidade dos corais. A poluição e a pesca excessiva tornam ainda pior essa situação.
Para Sala, a mensagem é clara: a pesca exagerada é uma espécie de sabotagem ambiental.
"É como retirar peças essenciais de uma máquina e esperar que ela continue funcionando", diz.
No recife Kingman, a máquina ainda preserva todas as suas partes. E, como o ecossistema está intocado, ele apresenta capacidade de recuperação diante das tensões ambientais. O Kingman proporciona um dos derradeiros vislumbres do que um recife de coral deveria ser: um cartão-postal do passado em benefício do futuro.
Saiba Mais
Kingman é um recife de corais tropical, cuja área mede 1 km², localizado no norte do Oceano Pacífico, aproximadamente na metade do caminho entre as Ilhas Havaianas e a Samoa Americana. É a mais ao norte das Ilhas da Linha, e um território dependente dos EUA, administrado de Washington pela Marinha Estadunidense. O recife é fechado ao público. Ele foi descoberto em 1789, pelo capitão do navio Betsey, Edmund Fanning. O Capitão W. E. Kingman descreveu-o em 1853. O recife foi formalmente anexado aos Estados Unidos em 10 de maio de 1922. O Recife Kingman dista em torno de 920 milhas náuticas ao sul de Honolulu. Às vezes, sua faixa costeira pode chegar a três quilômetros de circunferência, porém o ponto mais alto do recife mede um metro acima do nível do mar, fazendo de Kingman um perigo marítimo. Ele não possui recursos, é inabitado, e não suporta atividade econômica.
Até mesmo um recife de coral remoto e praticamente intocado como o de Kingman está sujeito ao impacto humano. No final de 2007 os ecologistas norte-americanos não sabem dizer exatamente quando um grande navio afundou do lado norte do recife. Os cientistas desconfiam que o navio que parece ser feito de teca e pode ser uma embarcação de pesca do Sudeste Asiático tenha sofrido grandes danos causados por fogo antes de ser abandonado; depois disso, teria flutuado uma longa distância para o leste, até chegar a Kingman. Fotografias tiradas em um sobrevôo da Guarda Costeira dos EUA em 2008 mostram que uma cianobactéria escura está crescendo nas poças de maré na região dos destroços; é provável que isso se deva ao ferro dissolvido do metal corroído no barco. Essa bactéria pode ser invasiva e pode atrasar a recuperação do recife afetado. Este navio é apenas um entre os vários em sua maior parte, navios pesqueiros da Ásia que foram parar em atóis e recifes das ilhas Line do norte nas duas últimas décadas. Segundo Jim Maragos, biólogo especializado em recifes de coral que trabalha com a U.S. Fish and Wildlife Service: "Esses naufrágios são sintomas de uma crise muito maior que afeta todo o Pacífico milhares de pescadores pescando sem pedir licença, deixando seus destroços para trás sem pagar, desrespeitando de maneira geral as pessoas responsáveis pelos cuidados com essas ilhas e por sua sobrevivência para as gerações futuras".

Um espetáculo de cores e formas, o coral rígido cobre o raso leito de mar no recife Kingman. Os cientistas que visitaram esse remoto atol no oceano Pacífico o descrevem como uma “máquina do tempo”, um ambiente que sobreviveu quase que em seu estado original.

Tubarões e pargos-de-manchas rondam as águas do recife em busca de alimento. Os cardumes, uma visão comum à maioria dos recifes, aqui são raros. A abundância saudável de grandes predadores – 85% da biomassa de peixes – faz com que a maioria das espécies menores se esconda.

Um Paracirrhites forsteri fica à espreita, pronto para atacar de surpresa peixes e crustáceos menores. Embora ocupe um patamar intermediário na cadeia alimentar, este peixe tem de agir logo e voltar a seu esconderijo para evitar os grandes predadores.

Desfilando as cores do sol e do céu, um peixe-anjo se mostra na laguna do recife de Kingman. O fotógrafo Brian Skerry disse que nunca teve que se esforçar tanto para conseguir fotos de peixes pequenos em um recife: “Eu não vi os enormes cardumes que estava acostumado a ver em recifes saudáveis”. Quando ele se aproximava, os peixes normalmente se escondiam dentro do coral. “Devem ter pensado que eu era um tubarão”, avalia Skerry.

Em um recife lindo, perfeito para só ficar olhando a paisagem, os pesquisadores não descansam: a ecologista Jennifer Smith (em primeiro plano), da Universidade da Califórnia em Santa Barbara, coloca uma moldura sobre o coral para documentar segmentos de um metro quadrado ao longo de uma linha transversal. De volta ao barco, Smith vai analisar as imagens para criar um perfil das diversas espécies que vivem no fundo do recife. Ao fundo, Jim Maragos, especialista em coral do Fish and Wildlife Service dos Eua, conta, avalia o tamanho e identifica corais na mesma transversal. “Tive o privilégio de visitar milhares de recifes em mais de 30 países”, diz Maragos, “e Kingman é realmente o mais intocado que já vi.”
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Segundo os mergulhadores, de longe ele mais parecia um disco voador. Ao se aproximar, contudo, o ecólogo Enric Sala deparou com um estupendo coral lobular que pode ter 500 anos de idade. Para o especialista Jim Maragos, trata-se de uma espécie jamais vista.

Tubarões cinzentos e peixes vermelhos nadam por cima do coral, esperando sair dali os peixes de que eles se alimentam. “Eles vão atrás de qualquer coisa que se move”, observa Enric Sala, ecologista marinho do Conselho de Pesquisa Científica da Espanha e bolsista da National Geographic. Devido à abundância de tubarões e vermelhos e sua disputa pela comida, esses animais estão sempre “à beira da fome”, explica Sala.

Um blênio do gênero Plagiotremus e outro do gênero Cirripectes, ambos medindo cerca de 10 centímetros, buscam segurança nos corais. Os Plagiotremus às vezes se arriscam ao buscar escamas e até o muco que reveste a pele de peixes maiores.

Um blênio de apenas alguns centímetros de comprimento se esconde dos predadores.

Dentes aguçados e fome voraz fazem do pargo-de-manchas o predador mais agressivo do recife. Com até 80 centímetros de comprimento, eles atacavam os mergulhadores, mordiscando-lhes a orelha e o cabelo. “Queriam ver se éramos apetitosos”, diz Sala.

Uma donzela-azul não se afasta muito da colônia de corais que lhe dá abrigo. Em comperação a recifes que têm menor número de predadores, as presas do recife de Kingman “passam menos tempo no mar aberto, menos tempo comendo, mais tempo escondidas. Elas têm medo”, explica o ecologista marinho Enric Sala.

A massa de tentáculos da anêmona marinha Heteractis magnifica garante abrigo a um camarão transparente do tamanho de um grão de arroz. Ancorada no recife, a anêmona ignora o camarão, mas alimenta-se de peixes e outras criaturas menores.

Eis a aparência de um recife sadio: corais exuberantes e variados recobrem o leito do mar. A água é translúcida como o ar, e um predador nativo – um pargo-de-manchas – segue atrás de presas esquivas. O segredo de Kingman? Nenhum predador humano por perto.

Limpando tudo que vêem pela frente, estas estrelas-do-mar avançam famintas pelo coral, transformando-o em um esqueleto branco. Infestações periódicas de estrelas-do-mar ocorrem naturalmente em recifes de coral, unindo-se a outros processos biológicos e ações das ondas que determinam a disposição dos corais. Levantamentos recentes de Kingman confirmam que recifes saudáveis agüentam a ação predatória das estrelas-do-mar muito melhor do que locais expostos à pesca e à poluição, já que predadores como alguns tipos de caramujos, ainda comuns em recifes saudáveis – e prevalentes em Kingman – matam as estrelas.
Por Kennedy Warne
Fotos de Brian Skerry
Fonte: Revista National Geographic
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